Jovens de 18 a 29 anos encontram saída para o analfabetismo no Projovem Urbano

Num país que ainda amarga um número alarmante de 13 milhões de analfabetos, quem busca sair desta estatística na fase adulta revela histórias de muita dor até chegar à escola. É o caso de Lilian Regiaco Conegundes, de 26 anos, que teve contato com os livros pela primeira vez por meio do Programa Projovem Urbano, na Escola Municipal Marinete Cavalcante, em Comendador Soares, Nova Iguaçu.

Para a secretária Municipal de Educação, Maria Aparecida Marcondes Rosestolato, o programa tem um perfil social, que acolhe os alunos e seus filhos. “Muitas alunas levam os filhos para a sala de aula ou os deixam na sala de acolhimento. É comum as mamães prestarem atenção à aula ao mesmo tempo em que amamentam seus bebês”, contou a secretária.

O Projovem beneficia jovens de 18 a 29 anos de idade e garante à conclusão do ensino fundamental em 18 meses, além de certificar o aluno para iniciação profissional em áreas como Turismo e Hospitalidade, recepcionista de consultório médico ou dentário, inspetor de alunos, contador de histórias, entre outras profissões.

E é isso que vem motivando quem não tem mais tempo a perder. No caso de Lilian, que não possuía certidão de nascimento até os 25 anos de idade, restava a jovem trabalhar nas ruas para ajudar a família a sustentar os irmãos. Ela conta que durante o dia catava material de reciclagem, como latinhas, papelão e a noite vendia balas. E foi assim até conhecer o marido Tarcísio aos 15 anos de idade.

“Meu marido e minha sogra é que me incentivam a estudar. Por conta dos problemas tive depressão e até hoje não superei. Tinha muita vergonha de não saber ler. Quando entrei na escola eu só chorava, porque não conseguia acompanhar a lição”, declarou.

E ela não está sozinha nessa estrada escura que é o analfabetismo. Carlos Adriano Rosa da Silva, 28, chegou ao Projovem Urbano na Escola Dr. Fróes Machado, no bairro Valverde, aos 28 anos e com sede de aprender. Ele também não existia oficialmente para o mundo até os 25 anos, quando ele mesmo tirou seu registro de nascimento. Hoje, ambos contam com o apoio dos professores que têm sido espelho para os alunos.

“Cheguei aqui com muita dificuldade. Tive que me ausentar por um período para trabalhar fora do Rio, mas retornei e todo o apoio dos professores”, revelou Carlos.

Se para os alunos o Projovem Urbano é uma porta para quem vai iniciar ou concluir o Ensino Fundamental, para os professores não basta só ensinar. Eles têm um papel fundamental para garantir a permanência do aluno em sala de aula, além de lidar com as mais diversas situações.

De acordo com a coordenadora do Projovem, Zélia Veronezi, além da sala de aula, os alunos participam de visitas a empresas e órgãos como a Cedae e ao final do programa deixam uma contribuição para a comunidade, já que o Programa prevê participação cidadã.

“Psicólogo”

O professor além de passar o conteúdo muitas vezes precisa exercer a função de “psicólogo”. Neste caso, o ouvir passa a ser uma ferramenta importante. São relatos de histórias de violência sexual, drogas e abandono.

“Temos que ouvir e criar um ambiente de acolhimento para que eles permaneçam na escola. Senão eles não ficam”, contou a professora de Ciências da natureza, Marcella de Araújo.

O programa funciona atualmente nas Escolas Municipais Dr. Fróes Machado, França Carvalho e Marinete Cavalcante.